Toucas durante a quimioterapia

Resfriamento do couro cabeludo durante a quimioterapia

A quimioterapia é indicada em diferentes ocasiões para tratamento do câncer de mama. Nos casos onde a doença pode ser curada (que são a maioria), a quimioterapia tem o objetivo de tratar células microscópicas que possam ter escapado para a corrente sanguínea (micrometástases). Assim como o tratamento quimioterápico mata células malignas, também mata células benignas que possuem crescimento rápido, como as dos folículos pilosos. A queda dos cabelos é um dos principais sintomas que preocupam as pacientes e causam estresse e perda de qualidade de vida (1,2).

As toucas hipotérmicas e os sistemas de resfriamentos do couro cabeludo são espécies de capacetes que devem ser usados antes, durante e após a infusão de quimioterapia, com o objetivo de diminuir ou evitar a queda de cabelos. As toucas são preenchidas com hidrogel, que pode chegar a temperaturas entre -40°C e -26°C.

O racional é fazer a constrição de vasos sanguíneos que chegam ao couro cabeludo, reduzindo a quantidade de quimioterapia que atinge os folículos pilosos (3). Dessa forma, a chance de perda de cabelos é menor. O resfriamento também diminui a atividade dos folículos pilosos, diminuindo a velocidade de divisão celular, fazendo com que a quimioterapia tenha menos ação sobre eles (4).

Durante a quimioterapia, as toucas devem ser utilizadas nos seguintes momentos:
– 20 a 50 minutos antes da quimioterapia iniciar;
– durante toda a quimioterapia;
– após a quimioterapia – o tempo dependerá de qual protocolo estiver sendo utilizado.

Tipos de resfriamento:

  • Toucas hipotérmicas: semelhantes a pacotes de gelo; ficam armazenadas em freezer especial (que atinge baixas temperaturas) antes de serem usadas e derretem durante a quimioterapia, devendo ser trocadas em intervalos frequentes (a cada 30-45 minutos); algumas marcas: Penguin (https://penguincoldcaps.com), Chemo Cold Caps (http://chemocoldcaps.com) e Elastogel (http://www.elastogels.com figura 1);
  • Sistemas de resfriamento do couro cabeludo: a touca fica ligada a uma máquina na qual circula um líquido de resfriamento, fazendo com que a touca não precise ser trocada durante a quimioterapia; os sistemas aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA) são o DigniCap System (https://dignicap.com; figuras 2 e 3) e o Paxman Orbis Scalp Cooler System (https://paxmanscalpcooling.com/scalp-cooling; figura 4).

 

Figura 1 – Touca hipotérmica Elasto-Gel.

Figura 2 – Sistema de resfriamento Dignicap.

Figura 3 -Toucas do sistema de resfriamento Dignicap.

Figura 4 – Sistema de resfriamento Paxman.

 

Como efeito adverso do uso das toucas hipotérmicas, pode haver cefaléia durante seu uso (4). Muitas pacientes sentem bastante frio durante o uso das toucas, sendo recomendado o uso de roupas quentes de inverno e cobertores.

Cuidados com os cabelos durante todo o tratamento quimioterápico para pacientes que optem por usar toucas hipotérmicas:
– não usar secador, rolos ou chapinha;
– lavar com xampu apenas a cada 3 dias, com água fria;
– não pintar nem tonalizar até 3 meses após término da quimioterapia;
– pentear e escovar com cuidado.

O custo das toucas depende do fabricante e do número de sessões de quimioterapia. Um limitante ao uso das toucas hipotérmicas seria um risco potencial de desenvolver metástases em couro cabeludo (4), uma vez que os quimioterápicos não chegariam neste local para matar células malignas que poderiam estar presentes. Alguns estudos já tem demonstrado que o risco de metástases em couro cabeludo não é maior com o uso das toucas (5-9).

É importante salientar que as toucas hipotérmicas não funcionam para todas as pessoas. A efetividade varia de 50-65%, com resultados melhores para pacientes que recebem quimioterapia apenas com taxanos. Os resultados para antraciclinas não são tão bons. O sucesso na retenção dos cabelos depende de como as toucas são ajustadas na cabeça, o que depende de uma curva de aprendizado por parte das equipes que manipulam as toucas (4). As toucas devem ser fixadas de maneira bem firme à cabeça.

O estudo Scalp Cooling Alopecia Prevention (SCALP) randomizou 182 pacientes com câncer de mama em estágios I e II que receberiam no mínimo 4 ciclos de taxanos e/ou antraciclinas para usar o sistema Paxman de resfriamento de couro cabeludo ou não usar método algum (4). Foram excluídas pacientes com história de alopecia acima de grau 0 (pelo Common Terminology Criteria for Adverse Events version 4.0 – CTCAE v4.0), quimioterapia prévia, enxaqueca, hipotireoidismo, hepatite, diabete descompensada, anorexia ou anemia grave. O questionário de qualidade de vida Core 30 do European Organisation for Research and Treatment (EORTC QLQ-C30), a Escala de Ansiedade Hospitalar (HADS), e a Escala de Imagem Corporal (BIS) foram administrados antes do tratamento, após 4 ciclos de quimioterapia e após completar o tratamento, para quem recebeu mais de 4 ciclos. O desfecho primário foi o sucesso na preservação dos cabelos após o 4° ciclo de quimioterapia, definido como alopecia grau 0 (sem perda de cabelos) ou grau 1 (perda de menos de 50% do cabelo, sem necessidade de peruca). Das pacientes incluídas, 64% receberam taxanos e 36% receberam antraciclinas. A preservação de cabelos com antraciclinas foi de 16% (IC 95% 4-46%) e com taxanos, de 59% (IC 95% 27-84%). O uso de perucas ou lenços foi necessário para 63% das pacientes que usaram o Paxman. Não houve diferenças nos escores de qualidade de vida entre o grupo que usou e o que não usou o sistema Paxman. O grupo que usou o Paxman teve afeitos adversos graus 1 (n=46) e 2 (n=8; 7 cefaléias e 1 dor no couro cabeludo) apenas, incluindo calafrios, cefaléia, náuseas, tonturas parestesias, prurido, dor em seios da face, ulcerações de pele, pele seca, dor no couro cabeludo e outros problemas cutâneos.

As maiores taxas de sucesso na preservação dos cabelos ocorre com o uso do quimioterápico paclitaxel (ou taxol) semanalmente, seguido do uso de docetaxel a cada 21 dias e, por fim, com taxas bem menores de preservação, o uso de antraciclinas (10,11).

O uso do resfriamento do couro cabeludo é contra-indicado em casos de doenças de aglutininas frias, crioglobulinemia e criofibrinogenemia e no caso de doenças que possuem células circulando no sangue, como leucemias e linfomas (12).

 

Referências

  1. Zdenkowski N, Tesson S, Lombard J, et al. Supportive care of women with breast cancer: key concerns and practical solutions. Med J Aust 2016;205(10):471-475.
  2. Trusson D, Pilnick A. The role of hair loss in cancer identity: perceptions of chemotherapy-induced alopecia among women treated for early-stage breast cancer or ductal carcinoma in situ. Cancer Nursing2016;40(2):E9-E16
  3. Massey CS. A multicentre study to determine the efficacy and patient acceptability of the Paxman Scalp Cooler to prevent hair loss in patients receiving chemotherapy. Eur J Oncol Nurs. 2004;8 (2):121-130.
  4. Nangia J, Wang T, Osborne C et al. Effect of aScalpCooling Device on Alopecia in Women Undergoing Chemotherapy for Breast Cancer: The SCALP Randomized Clinical Trial. JAMA 2017 Feb 14;317(6):596-605.
  5. Lemieux J, Desbiens C, Hogue JC. Breast cancer scalp metastasis as firstmetastatic site after scalp cooling: two cases of occurrence after 7 and 9-year follow-up. Breast Cancer Res Treat. 2011;128(2):563-566.
  6. van de Sande MA, van den Hurk CJ, Breed WP, Nortier JW. Allow scalp cooling during adjuvant chemotherapy in patients with breast cancer; scalp metastases rarely occur [in Dutch]. Ned Tijdschr Geneeskd. 2010;154:A2134.
  7. Lemieux J, Amireault C, Provencher L, Maunsell E. Incidence of scalp metastases in breast cancer: a retrospective cohort study in women who were offered scalp cooling. Breast Cancer Res Treat. 2009;118(3):547-552.
  8. Christodoulou C, Tsakalos G, Galani E, Skarlos DV. Scalp metastases and scalp cooling for chemotherapy-induced alopecia prevention. Ann Oncol. 2006;17(2):350
  9. van den Hurk CJ, van de Poll-Franse LV, Breed WP, Coebergh JW, Nortier JW. Scalp cooling to prevent alopecia after chemotherapy can be considered safe in patients with breast cancer. Breast 2013;22(5):1001-1004.
  10. van den Hurk CJ, Peerbooms M, van de Poll-Franse LV, Nortier JW, Coebergh JW, Breed WP. Scalp cooling for hair preservation and associated characteristics in 1411 chemotherapy patients—results of the Dutch Scalp Cooling Registry. Acta Oncol. 2012;51(4):497-504.
  11. Komen MM, Smorenburg CH, van den Hurk CJ, Nortier JW. Factors influencing the effectiveness of scalp cooling in the prevention of chemotherapy-induced alopecia. Oncologist. 2013; 18(7):885-891.
  12. Shin H, Jo SJ, Kim DH, Kwon O, Myung SK. Efficacy of interventions for prevention of chemotherapy-induced alopecia: a systematic review and meta-analysis. Int J Cancer. 2015;136(5): E442-E454.

 

 


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