A “pílula do câncer”

Sobre a fosfoetanolamina ou “fosfo” – realmente a pílula do câncer?

Do que se trata?

A fosfoetanolamina é um composto químico que está naturalmente presente no nosso organismo. Ela ajuda a formar uma estrutura muito importante nas células, chamada de membrana celular. Está envolvida na síntese de lipídeos (gordura) e parece também ter um papel de sinalização, ou seja, de avisar ao nosso corpo determinadas situações pelas quais as células estão passando.

A fosfoetanolamina sintética possui estrutura correspondente àquela presente nas pessoas. Ela foi desenvolvida no Instituto de Química da USP, em São Carlos, já tendo sido testada em células no laboratório e em animais (ref. 1-5), mas ainda não em humanos.

Quais os passos para que os novos medicamentos possam ser usados em humanos?

Após avaliação em laboratório (in vitro) e em modelos animais, as drogas candidatas a se tornarem novos medicamentos podem, então, ser testadas em humanos. Estes estudos envolvem a participação de voluntários em estudos clínicos, os quais passam por rigorosa regulamentação internacional e nacional, em todos os países que desenvolvem tais estudos. Isso é importante para garantir a segurança das pessoas que receberão a nova substancia. Os estudos devem seguir 3 etapas:

– Fase I: testa a segurança do medicamento, encontrando a dose mais segura em humanos, ou seja, aquela que causa efeitos adversos passíveis de manejo e não leva a morte;

– Fase II: avalia se o remédio é eficaz, ou seja, se ele funciona para uma determinada doença;

– Fase III: testa se o remédio é melhor do que o tratamento padrão para aquela doença, avaliando sua efetividade e os efeitos adversos em um número bem maior de pacientes, em comparação com as fases anteriores.

Quando o medicamento novo se mostra seguro e eficaz no tratamento da doença avaliada, as agências de saúde juntam toda a evidência disponível sobre tal substância e aprova ou não sua indicação de uso, colocando na bula todos os benefícios e riscos já descritos com o medicamento em questão. As agências de saúde tem o papel de normatizar, controlar e fiscalizar produtos, substâncias e serviços de interesse para a saúde das pessoas. No Brasil, temos a Anvisa (portal.anvisa.gov.br); nos Estados Unidos, o FDA (www.fda.gov); no Reino Unido, o NICE (www.nice.org.uk); e no restante da Europa, a EMA (www.ema.europa.eu/ema/).

A fosfoetanolamina sintética não passou por nenhuma das fases de estudo clínico (em humanos) e, portanto, não foi avaliada por agências regulamentadoras. Mesmo assim, a substância passou a ser distribuída, inadvertidamente, para pacientes com câncer avançado, sem opções de tratamento. Há várias descrições em redes sociais de pacientes e familiares que relatam ?cura? do câncer com a fosfoetanolamina. E é claro que não podemos menosprezar tais relatos. No entanto, diferente da área do Direito, onde relatos de casos (ou jurisprudência) formam a base para julgamentos, na Medicina os relatos de casos são frágeis em vários aspectos, sendo utilizados apenas como base para conduta em doenças muito raras, onde existem poucos pacientes disponíveis para estudos clínicos.

Uma vez que diferentes cânceres afetam de modo muito particular os diversos órgãos do corpo, medicamentos que funcionam para um tipo de tumor, não necessariamente, funcionarão para outro. Isso acontece porque os genes ativados de um tumor são diferentes em cada órgão (como mama, pulmão, intestino, estomago e pâncreas) e também porque os fatores causadores de cada tipo de câncer são diferentes. Então, dificilmente uma substância tem a capacidade de curar todos os tipos de câncer. Seguindo este raciocínio, os testes com animais não podem predizer com precisão o efeito que a droga causará na espécie humana, devido às diferenças biológicas. Diversos medicamentos que pareceram promissores em estudos em células e animais notoriamente apresentaram alto índice de falha em estudos em humanos (ref. 6), mostrando a importância de se haver estudos em humanos.

Além disso, em torno de 10% de todos os medicamentos novos recebem acréscimo de novas advertências ou são retirados do mercado anos após terem sido comercializados (ref. 7). Em um período de 25 anos, um medicamento tem 20% de chance de ser retirado do mercado ou apresentar efeitos colaterais inesperados. Isso ocorre devido à farmacovigilância, que é o monitoramento dos efeitos indesejáveis de um medicamento depois que ele já está sendo comercializado. Embora sejam apresentados diversos testes que garantem a qualidade, eficácia e segurança do medicamento no momento do seu registro, somente o uso em maior escala durante a comercialização permite que certos efeitos adversos ocorram e sejam notificados (http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2009/190309_3.htm).

Porque há tanta polêmica em torno da fosfoetanolamina?

Provavelmente porque não seja nem um pouco comum vermos pesquisadores sendo forçados a produzir uma substância, sob ordem judicial, que não foi aprovada para uso pela agencia nacional que regulamenta a saúde de um país.

Qual é a teoria da conspiração?

Que os médicos (oncologistas, em especial) e a indústria farmacêutica não querem a cura do câncer, por isso não desenvolvem os estudos clínicos. Ora, não sejamos ingênuos. Se a fosfoetanolamina é realmente mágica (e assim eu espero que ela se mostre, nos estudos clínicos), por que nenhuma indústria farmacêutica teve interesse nela? Afinal de contas, são elas que investem bilhões de euros para pesquisar em torno de 6000 compostos novos, que levarão ao desenvolvimento de 20 moléculas novas, das quais apenas 1 será aprovada e comercializada (http://www.asbmb.org/asbmbtoday/asbmbtoday_article.aspx?id=8668). Da mesma forma, a ideia de que oncologistas não queiram a cura do câncer é tão leviana quanto achar que cardiologistas não queiram a cura da cardiopatia isquêmica, que endocrinologistas não queiram o controle da obesidade ou que infectologistas não queiram evitar a infecção pelo zika vírus.

Por que os oncologistas não prescrevem a fosfoetanolamina?

Além de não se saber para que tipo de câncer ela é indicada, ou qual seria a dose correta e a forma de administrar o medicamento, também não se conhecem seus efeitos adversos nem mesmo a duração do seu efeito (alguns remédios podem funcionar por poucos meses e, após, não controlam mais a doença), já que a falta de registro implica na ausência de uma bula aprovada. Vamos lembrar de alguns casos emblemáticos.

A talidomida, desenvolvida na Alemanha em 1954 como agente sedativo, foi comercializada a partir de 1957, gerando milhares de casos de focomelia quando utilizada na gestação, por atingir o feto. A focomelia é uma síndrome que causa aproximação ou encurtamento dos membros junto ao tronco do feto, tornando-os semelhantes aos de uma foca. A talidomida foi retirada do mercado em 1961. Atualmente, só é permitida para o tratamento da hanseníase (conhecida antigamente como lepra).

O Vioxx foi um anti-inflamatório desenvolvido para tratar artrite, mas foi retirado do mercado após estudos com milhares de pacientes mostrarem que podia causar infarto cardíaco com morte e acidente vascular cerebral.

O Prexige também foi um anti-inflamatório desenvolvido e aprovado para uso em osteoartrite, mas saiu do mercado por causar danos graves no fígado, levando à morte ou necessidade de transplante hepático de alguns usuários.

E o efeito placebo?

Um placebo é uma substância sem efeito farmacológico que apresenta efeitos terapêuticos devido à “crença” de que ela possa funcionar. Essa “crença” pode desencadear efeitos biológicos, modificando estímulos cerebrais responsáveis por dor, causando alivio para o paciente (ref. 8). Se não testarmos medicamentos de maneira sistemática, não ha como saber se alguns relatos de melhora da dor com o uso da fosfoetanolamina tratem-se da ação da substancia ou de um componente de efeito placebo.

Próximos passos

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que R$ 10 milhões serão destinados para a pesquisa da fosfoetanolamina, em um período de dois anos. Após a primeira etapa de análises, estão previstas as fases seguintes dos estudos em humanos. Ainda não é possível prever quanto tempo levará para sabermos se a substância é segura e eficaz para o tratamento de diferentes tipos de câncer. Por enquanto, não estamos autorizados a prescrever a substância.

Após seguir os passos que as demais moléculas novas seguem para aprovação em seres humanos, talvez possamos contar com a fosfoetanolamina como mais uma opção no arsenal terapêutico do combate ao câncer.

Referências:

  1. Ferreira AK, Freitas VM, Levy D, Ruiz JL, Bydlowski SP, Rici RE, et al. Anti-angiogenic and anti-metastatic activity of synthetic phosphoethanolamine. PLoS One. 2013;8(3):e57937.
  2. Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Mendonca Filho O, Chierice GO, Maria DA. Anticancer effects of synthetic phosphoethanolamine on Ehrlich ascites tumor: an experimental study. Anticancer Res. 2012;32(1):95-104.
  3. Ferreira AK, Meneguelo R, Marques FL, Radin A, Filho OM, Neto SC, et al. Synthetic phosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growth in mice bearing melanoma B16-F10 and in vitro induce apoptosis and arrest in G2/M phase. Biomed Pharmacother. 2012;66(7):541-8.
  4. Ferreira AK, Santana-Lemos BA, Rego EM, Filho OM, Chierice GO, Maria DA. Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects. Br J Cancer. 2013;109(11):2819-28.
  5. Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Filho OM, Chierice GO, Maria DA. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest and apoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway. Biomed Pharmacother. 2013;67(6):481-7.
  6. Ledford H. Brazilian courts tussle over unproven cancer treatment. Nature. 2015;527(7579):420-1.
  7. Lasser KE, Allen PD, Woolhandler SJ, Himmelstein DU, Wolfe SM, Bor DH. Timing of new black box warnings and withdrawals for prescription medications. JAMA. 2002;287(17):2215-20.
  8. Lanotte M, Lopiano L, Torre E, Bergamasco B, Colloca L, Benedetti F. Expectation enhances autonomic responses to stimulation of the human subthalamic limbic region. Brain Behav Immun. 2005;19(6):500-9.

 

Texto de Daniela Dornelles Rosa
Médica Oncologista
Porto Alegre, RS