Sobre tratamentos alternativos

Em maio de 2017, o apresentador Marcelo Rezende foi diagnosticado com câncer de pâncreas com metástases no fígado. Quando a doença se apresenta desta maneira, não existem tratamentos capazes de fazê-la desaparecer. O objetivo do tratamento é controlar a doença e os sintomas pelo maior tempo possível. Os melhores esquemas de tratamento disponíveis hoje são os esquemas folfirinox ou gemcitabina+nab-paclitaxel. No entanto, sabemos que esta é uma doença grave e que, mesmo com o tratamento adequado, o tempo de controle varia de um ano a um ano e meio (isto varia muito de caso a caso e o tempo pode ser maior ou menor que este, dependendo de diversos fatores).

A despeito de ter iniciado o tratamento com um dos esquemas citados acima, o apresentador optou por abandonar o tratamento médico e seguir dietas alternativas. É compreensível que, estando diante de uma doença grave, a pessoa busque alternativas de tratamento. E isso sempre é respeitado. No entanto, já foi diversas vezes comprovado que o uso deste tipo de terapias aumenta a chance de morte. Em um estudo recente, foi demonstrado que pessoas que seguem “tratamentos alternativos” têm um risco duas vezes e meia maior de morrer, em comparação com pessoas que seguem tratamentos médicos cientificamente comprovados, ou seja, as pessoas que fizeram tratamentos alternativos tiveram menos controle da doença e viveram menos do que pessoas que fizeram tratamentos médicos.

Particularmente perigosa é a dieta cetogênica, que ganhou fama na internet. Este tipo de dieta está associada com perda de peso importante e sabemos que perder peso durante o tratamento do câncer avançado é um problema gravíssimo. Pessoas que perdem mais de 15% do peso, como perdeu Marcelo Rezende, vivem em média 4 meses, praticamente o tempo que viveu Marcelo Rezende depois do diagnóstico.

A internet é cheia de pseudo-tratamentos contra os mais variados tipos de doenças, em particular o câncer, desde dietas, ervas, pílulas mágicas dentre muitos outros. Devemos ser sempre muito cautelosos. Deste triste acontecimento a mensagem que fica é de buscar sempre ajuda de profissionais qualificados para o tratamento do câncer.

Mesmo que o tempo de controle da doença ainda seja pequeno, esses meses podem significar muito para o paciente e família. Podem ser mais um aniversário, um casamento, um Natal. A medicina não está satisfeita com esses resultados e muitas pesquisas sobre o comportamento do câncer de pâncreas, seus pontos fracos e novos medicamentos estão em andamento.

 


Felipe Ades
Médico Oncologista
São Paulo, SP

OBS.: O Infomama estimula o desenvolvimento e a aplicação da MEDICINA INTEGRATIVA, que é composta por práticas e atividades que contemplam o paciente como um todo, trabalhando para influenciar aspectos físicos, emocionais, mentais, sociais, espirituais e de ambiente que possam colaborar para a saúde do paciente. A Medicina Integrativa vai além do tratamento dos sintomas, pois aborda outras causas de doença também e não substitui a alopatia (ou medicina convencional), mas sim, trabalha em conjunto, através de práticas como acupuntura, ioga, meditação, práticas de relaxamento e massagem, entre outras. Para mais informações: http://www.bravewell.org/content/pdf/IntegrativeMedicine2.pdf

Referências
1.Conroy T, Desseigne F, Ychou M et al. FOLFIRINOX versus Gemcitabine for Metastatic Pancreatic Cancer. N Engl J Med 2011; 364:1817-1825.
2.Hoff DDV, Ervin T, Arena FP et al. Increased Survival in Pancreatic Cancer with nab-Paclitaxel plus Gemcitabin. N Engl J Med 2013; 369:1691-170.
3.Johnson SB, Park HS, Gross CP, Yu JB. Use of Alternative Medicine for Cancer and Its Impact on Survival. Journal of the National Cancer Institute 2018;110(1):djx145.
4.Martin L, Senesse P, Gioulbasanis I et al. Diagnostic Criteria for the Classification of Cancer-Associated Weight Loss. Journal of Clinical Oncology 2015; 33:90-99.
5.Angell M, Kassirer JP. Alternative medicine-the risks of untested and unregulated remedies. N Engl J Med 1998;339:839-840.
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7.Han E, Johnson N, DelaMelena T et al. Alternative therapy used as primary treatment for breast cancer negatively impacts outcomes. Ann Surg Oncol 2011;18:912-916.

 

 


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