Por que os educadores físicos devem ser considerados trabalhadores essenciais durante a pandemia?

Importância do exercício físico na mortalidade por câncer na população

Há uma previsão de que teremos um aumento expressivo no número de casos novos de câncer, chegando a 22 milhões em 20301. Esse aumento deverá ocorrer por diversos fatores e, entre os mais relevantes, estão os hábitos de vida. Apenas 5-10% dos cânceres são causados por fatores geneticamente herdados – os demais casos devem-se a interações do nosso organismo com o ambiente (figura 1). Sabe-se que em torno de 30% dos casos de câncer poderiam ser evitados através de mudanças nos hábitos de vida2. Os principais hábitos de vida associados a risco de câncer são o tabagismo, o consumo de álcool em excesso, a obesidade e a inatividade física3

Figura 1: Papel dos genes e do ambiente no desenvolvimento de vários tipos de câncer


Adaptado de www.wcrf.org/dietandcancer

Vários estudos já demonstraram que o sedentarismo está associado a aumento da mortalidade por todas as causas4-10 A análise de 3 estudos, entre eles um grande estudo chamado “Women’s Health Initiative”, mostrou associação entre a quantidade de horas sentado em frente à tela com aumento de quase 2 x na mortalidade (compararam  <2h versus ≥6h por dia)4-6.

De acordo com a Sociedade Americana de Câncer, a obesidade está associada ao aumento de mortalidade por câncer colorretal, de mama (em mulheres na pós-menopausa), de endométrio, de rim, de esôfago (do tipo adenocarcioma), de estômago, de pâncreas, de vesícula biliar e de fígado11 De todos os casos de mortes por câncer nos Estados Unidos, 14% das mortes por câncer em homens e 20% em mulheres podem ser atribuídas a sobrepeso ou obesidade12.

Inatividade física está relacionada a aumento no risco de câncer de mama, colorretal, de próstata, de pâncreas e melanoma13 O aumento do risco de câncer de mama em mulheres sedentárias está associado a maiores concentrações séricas de estradiol, maiores quantidades de gordura e maiores níveis séricos de insulina. A inatividade física também pode aumentar o risco de câncer de cólon; do contrário, redução de pelo menos 50% na incidência deste câncer é observada em pessoas que fazem exercícios físicos14.

Já há bastante evidência científica de que uma nutrição inapropriada causa alterações no ambiente das células do organismo, podendo levar a danos no DNA e, desta forma, contribuir para o desenvolvimento do câncer15. A obesidade é associada a alterações inflamatórias e metabólicas que promovem o crescimento de células que podem levar também ao dano do DNA e a aumento no risco de câncer. Quando a nutrição é inadequada, pode haver redução da capacidade funcional do indivíduo, reduzindo a sua capacidade de resistir a estresse de fatores ambientais, levando, então, a maior risco de danos ao DNA e, desta forma, desenvolvimento de câncer15.

O exercício físico pode auxiliar a reduzir o risco de câncer através de vários mecanismos: redução da quantidade de gordura corporal (que tem papel inflamatório no organismo), redução das quantidades de estrogênio e aumento da insulina circulantes (o que aumenta o risco de desenvolver determinados tipos de câncer, como o de mama, por exemplo) e redução da inflamação do organismo15. O exercício físico também possui efeitos chamados de imuno-moduladores, ou seja, causa aumento da imunidade do organismo16,17. Exercícios aeróbicos causam redução do que chamamos de estresse oxidativo, reduzindo o risco de câncer17 .

Desta forma, com todas as evidências acima, temos o dever de considerar o exercício físico como uma atividade essencial, principalmente num momento de pandemia, onde restrições sociais e de trabalho estão contribuindo para o adoecimento físico e mental dos indivíduos18. Recomenda-se fortemente que seja ofertado à população a possibilidade de fazer exercícios orientados por educadores físicos durante a pandemia da covid-19, reforçando a necessidade de manutenção de medidas de higiene e distanciamento social, e nunca esquecendo do bem estar associado a todos os benefícios na saúde física que o exercício proporciona.

 


Daniela Dornelles Rosa, MD PhD
Médica Oncologista
Porto Alegre, RS

 

Referências

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  2. Vineis P, Wild CP. Global cancer patterns: causes and prevention. Lancet. 2014;383:549–557.
  3. Bray F, Jemal A, Grey N, et al. Global cancer transitions according to the Human Development Index (2008–2030): a population-based study. Lancet Oncol. 2012;13:790–801.
  4. Rillamas-Sun E, LaMonte MJ, Evenson KR, Thomson CA, Beresford SA, Coday MC, et al. The influence of physical activity and sedentary behavior on living to age 85 years without disease and disability in older women. The journals of gerontology 2017. doi: 10.1093/gerona/glx222
  5. Hamer M, Yates T, Demakakos P. Television viewing and risk of mortality: Exploring the biological plausibility. Atherosclerosis 2017;263:151–5. doi: 10.1016/j.atherosclerosis. 2017.06.024. [PubMed: 28645071]
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  8. Jefferis BJ, Parsons TJ, Sartini C, Ash S, Lennon LT, Papacosta O, et al. Objectively measured physical activity, sedentary behaviour and all-cause mortality in older men: does volume of activity matter more than pattern of accumulation? Br J Sports Med 2018. doi: 10.1136/ bjsports-2017-098733.
  9. Lee IM, Shiroma EJ, Evenson KR, Kamada M, LaCroix AZ, Buring JE. Accelerometer-measured physical activity and sedentary behavior in relation to all-cause mortality: The Women’s Health Study. Circulation 2018;137(2):203–5. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.117.031300.
  10. Theou O, Blodgett JM, Godin J, Rockwood K. Association between sedentary time and mortality across levels of frailty. CMAJ 2017;189(33):E1056–E64. doi: 10.1503/cmaj.161034.
  11. E. Calle, C. Rodriguez, K. Walker-Thurmond, and M. J.Thun. Overweight, obesity, and mortality from cancer in a prospectively studied cohort of U.S. adults. N Engl J Med.348:1625–1638 (2003) doi:10.1056/NEJMoa021423.
  12. Drewnowski, and B. M. Popkin. The nutrition transition: new trends in the global diet. Nutr. Rev. 55:31–43 (1997).
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