Está tudo bem

“Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
(…)

Quando o tempo for propício
(…)

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
(…)

E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo”

Oração ao tempo
(Caetano Veloso)

Tenho uma confissão para fazer: sou um ser em constante transformação.
Quanto isso seria angustiante alguns anos atrás? Perceber a volatilidade das convicções. A inconstância das verdades. A fragilidade das certezas.
Eu sempre tive certeza do que queria. Do que falava. Do que gostava (e do que não gostava). Mas nunca dei a importância devida aos sinais que a vida me dava de que a certeza das certezas era uma ilusão.
Quando era criança, eu tinha certeza que seria professora. Isso não aconteceu e eu não percebi que minha certeza tinha falhado.
Daí veio a adolescência, e eu tinha certeza que teria muitos namorados. Isso também não aconteceu, eu era exigente demais para namorar muito.
Comecei a faculdade e eu tinha certeza que era uma aluna brilhante. Entretanto, minhas notas não concordavam com isso. Passei a faculdade como uma aluna mediana, como a maioria dos meus colegas.
Eu tinha certeza que casaria jovem e teria quatro (!?) filhos. O destino gentilmente colocou o amor na minha vida no momento em que eu estava pronta para ele e, não tão gentilmente assim, mudou meus planos de maternidade.
Eu sempre acreditei que fazia tudo certo, não tolerava erros e falhas, não aceitava menos que a perfeição e nem percebi que meus modelos do que seria uma vida perfeita não se realizaram. Nenhum. E isso não me fez infeliz, muito pelo contrário. A cada certeza inalcançada, eu instintivamente reajustava as metas mas esquecia que as certezas tinham sido atropeladas pela vida real.
Ano passado, quando descobri que estava com câncer, me deparei pela primeira vez com a crueza da realidade de que eu não tinha controle de nada. Meu corpo, sempre tão correto e justo, do qual eu vinha cuidando com tanta dedicação com alimentação saudável e exercícios físicos, de repente cometeu um erro e, a partir deste erro criou um imenso problema. Não tinha mais nenhuma certeza de coisa nenhuma. A única coisa que eu sabia é que, certamente não sairia a mesma dessa experiência. Não entendia muito bem como essa transformação aconteceria, não imaginava o preço que eu teria que pagar por ela. Os cabelos? Os seios? O corpo? A vida? E se, contrariando todas as expectativas, eu saísse disso uma pessoa pior do que entrei?
Minha metamorfose vem acontecendo. Lenta. Gradual. Às vezes linda, outras nem tanto. Algumas vezes às custas de dor, noutras gentil e doce. É como se eu estivesse fazendo uma viagem longa e sem ponto de chegada, e viesse deixando pelo caminho coisas que não são essenciais, que pesam demais para seguir carregando, ao mesmo tempo que coloco na mochila coisas que vou aprendendo enquanto sigo meu trajeto. Tipo uma troca, uma permuta. Deixo pelo caminho minhas certezas e perfeições e me aproprio de compaixão pelos meus erros e defeitos.
Hoje entendo que nem sempre as coisas acontecem como a gente planeja. E está tudo bem.
Nem sempre o dia vai ter sol e céu azul. E está tudo bem.
Nem sempre vou me olhar no espelho e ficar satisfeita com o que eu estou vendo. E está tudo bem.
Nem sempre vai dar certo. E está tudo bem.
Mas sempre que eu alcanço algo que desejo muito, é ótimo. É pura felicidade e eu vivo essa felicidade intensamente.
Sempre que tem sol e céu azul, eu admiro a beleza do dia e respiro fundo como se pudesse encher meus pulmões com as suas cores.
Sempre que me olho no espelho e percebo minha beleza genuína, visto meu melhor sorriso e espalho a todos que ousarem um contato visual.
Sempre que dá certo, acredito que o caminho é esse mesmo.
Troquei minhas certezas, convicções e verdades por sonhos, desejos e aspirações. Toquei o medo do fracasso pela gentileza com meus erros. Troquei a busca pela perfeição pela libertação de aceitar ser vulnerável. E dessa negociação, eu saio em paz.


Juliana Rizzieri
Médica Pediatra e voluntária da ONG Projeto Camaleão
Porto Alegre, RS


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