Enfrentando os monstros do câncer de mama

Fazia uma semana que, por estar com problemas pessoais, havia questionado a Deus por qual razão ele ainda me deixava viver, se a vida tinha perdido o sentido e a graça? Como resposta, tive a descoberta do câncer de mama, que veio como um incentivo à vida, jamais como um temor à morte.
Mesmo sendo jovem (35 anos), com exames em dia e sem nenhuma predisposição genética, o diagnóstico de carcinoma foi confirmado. Desde o dia que soube que estava com câncer, resolvi que não ia deixar ele subir pra minha cabeça e ia apenas valorizar o que ele poderia me trazer de bom… fui direto no google e digitei: “aspectos positivos do câncer de mama” e descobri inúmeros direitos que recebemos a partir do diagnóstico, até mesmo quitar a casa financiada… pena que eu não tenho saldo a quitar, rsrsrrs
E assim foi. No dia que peguei o resultado, com a família reunida, fizemos um churrasco para comemorar a descoberta, com direito a foto cheia de sorrisos (foto 1). Churrasco??? Sorrisos? Sim, pois decidi, desde o início, que essa seria minha forma de enfrentar essa doença tão assustadora e que muitos falam por aí.

Foto 1 – Dia em que soube do diagnóstico.

Fui em busca de um profissional de minha confiança e não poderia ter conseguido equipe melhor para me cuidar. Ele sanou todas as minhas dúvidas em relação à cirurgia, mas disse que os efeitos posteriores ao tratamento, apenas um oncologista me diria, ou seja, só depois da alta cirúrgica eu saberia se perderia cabelo, que é nossa principal dúvida e anseio.
Feita a cirurgia no dia 15/08/2017, recebi alta no dia 17/08/2017 e, saindo do hospital, fui direto ao salão de beleza e raspei a cabeça com a máquina 4, pois afinal, eu, uma pessoa muito vaidosa, que fazia escova todas as manhãs, não poderia ficar toda desarrumada, por conta da limitação do meu braço, que teve esvaziamento axilar total (Foto 2).

Foto 2 – Cabeça raspada, após a cirurgia da mama.

Quando recebi o resultado do exame do material retirado com a cirurgia, a surpresa: além no nódulo no seio direito, todos os 16 linfonodos retirados da axila já apresentavam metástases, o que indicava se tratar de um câncer rápido, cujo tratamento deveria ser agressivo.
E assim eu segui, entre festas, danças, visitas, passeios, esperando o dia de iniciar a segunda tão monstruosa fase: a quimioterapia!
Quando pessoas me viam de cabelos já raspados (Foto 3), me perguntavam o motivo de minha atitude e eu lhes dizia: cada um deve trabalhar seu emocional conforme lhe for conveniente… eu sabia que não queria ver meus cabelos caírem; sabia que a possibilidade disso ocorrer era de 100%, mas como decidi desde o início, esse limão azedo viraria a limonada mais doce da minha vida e eu iria coordenar as minhas condições e meus fios de cabelo, não a doença!

Foto 3 – Esperando a quimio.

Passos seguintes, cheguei então à médica oncologista que entitulei de “meu anjo”, pois tive uma grande identificação com ela, que me explicou cada passo que estaria por vir com o tratamento oncológico (quimioterapia + radioterapia). Não foi uma ou duas vezes que eu pesquisei na internet, ouvi opiniões, palpites e indicações de pessoas, amigos e familiares, tudo isso que, naquele momento, minha “anja” mandou eu esquecer e focar para o nosso plano de tratamento que estava recém começando.
Assim, duas consultas e muitos exames após, estive na primeira sessão de quimioterapia (Foto 4), parecendo que eu estava em um hotel de luxo, fazendo medicamento pra dor de cabeça. Nas primeiras 24h parecia que sequer tinha feito algo tão assustador, cheguei até a comentar com meu marido que achava “fiasco” quem passava tão mal com as quimios, porém, depois vieram 3 dias difíceis, com náuseas insuportáveis que me impediram de sair da cama, mas logo parecendo que nada tinha ocorrido após o 5o dia da aplicação.

Foto 4 – Na 1a quimioterapia.

Para a segunda sessão, foram feitos ajustes, adaptada medicação mais forte, que não me deu enjôo, mas me deixou com sonolência, que fez eu aproveitar para dormir todo o sono que perdi na angústia, medo e ansiedade de esperar o tratamento, sendo tudo isso em vão.

Se nunca chorei? Ahhhh chorei!
Se não me revoltei? Ahhh me revoltei!
Se não senti pena de mim mesma? Ahhhh eu senti!

Mas todos esses sentimentos que nos impedem de seguir com força, foco, determinaçao e fé, não podem perdurar em nossa cabeça, muito menos em nosso coração.
Cabelos já caíram, já sofri alguns dos efeitos colaterais da quimioterapia, já vi que esses monstros que tanto assombram, são que nem os monstros das historinhas infantis, assustam muito mais do que fazem mal, realmente!
Pelo meu protocolo, ainda faltam 14 sessões de quimioterapia, que eu enfrentarei com mais força e mais vontade de vencer, principalmente depois de experimentar e ver que esses monstros tem dias contados e seus efeitos passam de uma forma tão rápida, que sequer guardarão espaço na memória que guardarei na minha vitória.
Se você descobriu recentemente um diagnóstico de câncer de mama, procure um bom médico e saiba que o tratamento é difícil, mas o monstro é muito menor do que as pessoas falam e nosso ganho de vida supera ele em milhões de vezes…
Ninguém diz que é fácil, mas posso afirmar que é possível, basta você escolher entre lutar e vencer ou deprimir-se e ser derrotada! Vai vencer o monstro que você alimentar!

 


Evelise de Freitas Fatori
Advogada
Porto Alegre, RS


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