Efeito dos exercícios nos padrões de sono no câncer de mama

Ao receber um diagnóstico de câncer de mama, a qualidade do sono do paciente pode ficar alterada, havendo problemas tanto na duração quanto na qualidade do sono. Estudos sugerem que até 70% das mulheres com câncer de mama têm distúrbios do sono no momento do diagnóstico e do tratamento e que em torno de 40% permanecem com problemas 18 meses após o tratamento. Os distúrbios do sono podem afetar não só a auto-estima e o humor, como também a aderência aos tratamentos propostos.

Há vários medicamentos que podem ser usados para auxiliar na correção dos problemas com o sono, com bastante sucesso. No entanto, a maioria destes pode ter efeitos adversos.

Intervenções comportamentais, como técnicas de relaxamento e estratégias para a higiene do sono, por exemplo, podem auxiliar bastante. O efeito da atividade física e do exercício nos distúrbios do sono também tem sido bastante estudado.

Atividade física é o movimento do corpo produzido pela contração dos músculos esqueléticos, resultando em aumento do consumo de energia. Exercício é uma categoria de atividade física que é planejada, estruturada e repetitiva, e que tem por objetivo de manter ou melhorar algum aspecto do desempenho físico (ou physical fitness), como por exemplo composição corporal, força muscular ou flexibilidade, entre outros.

Os mecanismos pelos quais o exercício teria impacto no padrão de sono seriam a melhora do peso corporal, do desempenho físico e do humor e também efeitos positivos em processos de inflamação e nos ritmos circadianos (os quais representam períodos de um dia, ou 24 horas, no qual se completam atividades do ciclo biológico dos seres vivos, como a regulação do sono e do apetite, por exemplo; ver figura 1).

Uma revisão sistemática da literatura (investigação focada em questão bem definida que tem o objetivo de identificar, selecionar, avaliar e resumir o máximo de evidências científicas relevantes possíveis) avaliou 15 estudos de atividade física e sono em mulheres com câncer de mama; 73% deles mostrou melhora dos padrões do sono com a realização de atividades físicas, incluindo aqui intervenções integrativas como ioga e qigong, por exemplo. Embora não se saiba exatamente a intensidade de atividades físicas necessária para que haja melhora no padrão de sono, sugere-se que, quanto mais intensa for a atividade, maior será o efeito positivo sobre o sono. As atividades mais estudadas foram caminhadas, ioga, qigong e dança.

O Colégio Americano de Medicina do Esporte considera segura a recomendação de exercícios para pacientes com câncer de mama durante tratamento com quimioterapia e radioterapia. Há melhora da capacidade aeróbica, da força muscular, da fadiga, da qualidade de vida de forma geral e, muitas vezes, também há efeito na composição corporal. Após termino do tratamento oncológico, manter ou iniciar atividades físicas é bastante benéfico, podendo haver, além dos ganhos já referidos acima, melhora nos sintomas de ansiedade e depressão, prevenção de linfedema do membro superior operado, melhora da imagem corporal, da imunidade e melhora dos padrões de sono.

Figura 1 – O ritmo circadiano normal consiste em ficar alerta quando está claro (tem sol), momento em que a secreção de cortisol atinge seu pico; ao longo do dia, o cortisol vai diminuindo e a secreção de melatonina começa a aumentar, no momento em que escurece (noite). Quando há alteração desse ritmo, a secreção dos hormônios não acompanha os períodos de sono e vigília, podendo haver distúrbios do sono.

 

Cabe salientar que alguns estudos observacionais sugerem que praticar exercícios antes e após o diagnóstico de câncer de mama pode reduzir o risco de recorrência, ou seja, reduzir a chance da doença retornar. Desta forma, atividades físicas devem ser sempre planejadas para pacientes com câncer de mama, salvo em situações onde haja contraindicações à realização das mesmas.

 


Daniela Dornelles Rosa
Médica Oncologista, PhD
Pós-doutora pela CAPES em Manchester (UK)
Porto Alegre, RS

 

 

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