Dia Mundial de Combate ao Câncer: 8 de abril

De acordo com a American Cancer Society, em 2018, em torno de 1,7 milhões de pessoas serão diagnosticadas com câncer (incluindo todos os tipos) nos Estados Unidos e 609 mil morrerão devido ao diagnóstico. No Brasil, estimativas para o biênio 2018-2019 sugerem que ocorrerão 640 mil casos novos de câncer por ano, onde os principais diagnósticos serão câncer de próstata, de pulmão, de mama em mulheres, de cólon e de reto, lembrando que câncer de colo do útero, do estômago e do esôfago também serão bastante frequentes.

Além de causar problemas físicos, o diagnóstico de câncer também está associado a estresse emocional e diminuição da qualidade de vida.

Porque o câncer se desenvolve

Se formos avaliar causas para o câncer, devemos primeiro conhecer 2 teorias para o desenvolvimento da doença maligna, que são complementares:

1. O câncer é uma doença causada por danos ao DNA, que consistem em uma serie de mutações em genes, as quais levam células normais a se transformarem em células malignas, com potencial de invadir tecidos vizinhos e causar disseminação (metástases a distância); algumas pessoas podem HERDAR as mutações genéticas (ou seja, nascer com elas, por terem sido transmitidas de geração para geração numa mesma família) e, desta forma, ter maior chance de desenvolver algum tipo de câncer, e outras pessoas podem ADQUIRIR as mutações ao longo da vida. As mutações herdadas são chamadas de germinativas e as adquiridas, de mutações somáticas.

2. Os eventos necessários para uma célula modificar-se e ficar maligna são a formação de novos vasos sanguíneos para alimentar o tumor (angiogênese), a perda do freio para parar a multiplicação celular (a célula fica com potencial de multiplicação descontrolada, sem limites), perda do mecanismo normal de morte celular programada (chamada de apoptose: ocorre quando uma célula se autodestrói devido a problemas que surgem e são detectados pelo nosso organismo), aquisição de autossuficiência em mecanismos de sinalização celular, que dão “comandos” para o tumor continuar crescendo, e perda de sensibilidade aos sinais antitumorais, ou seja, aqueles que fazem as células pararem de crescer. Os eventos citados são responsáveis pelo potencial que as células malignas têm de crescer e gerar metástases em locais distantes.

Desta forma, fica claro que a formação de um câncer não é um evento simples e isolado; pelo contrário: depende de múltiplos eventos que vão ocorrendo ao longo do tempo. O que conversaremos a seguir é a respeito de como reduzir a exposição a alguns fatores de risco já conhecidos para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

 

Atitudes para prevenir o desenvolvimento do câncer ou para fazer diagnóstico precoce

1. Exames de rastreamento: fazer exames que detectam células pré-malignas e proporcionam sua retirada antes de se transformarem em câncer, ou que detectam câncer num estagio bem inicial é fundamental para evitar a doença ou aumentar a chance de cura quando o câncer já existe. Exemplos: mamografia, colonoscopia, exame citológico de colo uterino (Papanicolao).

2. Não fumar: o tabagismo é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos para diversos tipos de câncer, como câncer de pulmão, da cavidade oral, do esôfago, da bexiga, dos rins, do pâncreas, do estômago, do colo uterino e leucemia mielóide. A estimativa é de que o tabagismo cause 30% das mortes por câncer nos Estados Unidos. Uma informação muito importante é que parar de fumar é SEMPRE benéfico! Estudos mostram que quem para de fumar antes dos 50 anos de idade tem a chance de morrer por doenças causadas pelo cigarro reduzida pela metade; esse risco de morte continua sendo reduzido mesmo para as pessoas que param de fumar apenas após os 70 anos de idade.

3. Controle de infecções: em torno de 18% dos cânceres podem ser causados por infecções; destas, a infecção pelo HPV (papiloma vírus humano) é considerada um evento necessário para o desenvolvimento da maioria dos casos de câncer de colo uterino. A vacinação contra o HPV leva à diminuição das lesões pré-malignas do colo uterino. O HPV também pode causar câncer de pênis, vagina, ânus e orofaringe. Outras infecções que podem causar câncer são pelos vírus da hepatite B e hepatite C (câncer de fígado), Epstein-Baar (linfoma de Burkitt), Helicobacter pylori (câncer de estômago). A imunodeficiência causada pelo HIV também está associada a maior risco de câncer.

4. Exposição a radiação: os raios solares ultravioletas (radiação UV) estão sabidamente associados ao câncer de pele do tipo não-melanoma. Evitar exposição ao sol e usar protetor solar são medidas que previnem o desenvolvimento do câncer de pele. A radiação ionizante é aquela que tem energia suficiente para tirar elétrons de sua órbita, levando os átomos a ficarem carregados, ou ionizados; esses íons formados podem causar danos em outros átomos das células. Quando a radiação ionizante chega em doses baixas, as células conseguem reparar o dano causado; mas quando chegam em doses mais elevadas (sobreviventes de bomba atômica, radioterapia para tratamento de doenças malignas, exposição a Raios-X), as células podem não conseguir reparar o dano, começando a produzir outras células defeituosas que podem causar câncer.

5. Ingestão de álcool: ingerir bebidas alcoólicas em grandes quantidades está associado a maior risco de câncer de boca, esôfago, mama e colo-retal. Quando comparados a pessoas que não bebem ou bebem pouco, estudos mostram risco 2,1 vezes maior de câncer da cavidade oral para pessoas que bebem 3-4 doses por dia, risco 5 vezes maior para quem bebe 5-7 doses por dia, risco 12 vezes maior para 8-11 doses/dia e 21 vezes maior para > 12 doses de álcool por dia. O uso de cigarro concomitante potencializa esse risco. O mesmo ocorre para o risco de câncer de pâncreas, que é 4 vezes maior em pessoas que fumam > 20 cigarros por dia e bebem mais de 21 doses de álcool por semana, quando comparados a pessoas que não fumam e bebem < 7 doses de álcool por semana. No caso do câncer de mama, o aumento de níveis de estrogênio e androgênio, associados ao consumo de álcool em mulheres, parece estar associado ao maior risco de ter a doença. Beber mais de 6 gramas de álcool por dia parece estar associado a maior risco de recorrência em mulheres que já tiveram câncer de mama; essa associação é maior para mulheres na pós-menopausa e naquelas com sobrepeso/obesidade.

6. Atividade física: pessoas que fazem atividades físicas parecem ter risco menor de desenvolver determinados tipos de câncer do que as sedentárias. Há evidência convincente de proteção contra câncer colo-retal e evidência provável de proteção contra o câncer de mama e de endométrio. Além do efeito na redução de risco de alguns cânceres, a atividade física ajuda a prevenir e reduzir o sobrepeso e a obesidade, que serão discutidos logo abaixo.

7. Obesidade: há associação de maior risco de câncer de mama, esôfago, pâncreas, colo-retal, endométrio e rins. Em torno de 4% dos tumores malignos que ocorreram no Brasil em 2012 estiveram atribuídos à obesidade, com destaque para câncer de mama, endométrio e colo-retal em mulheres e câncer colo-retal, de próstata e de fígado em homens. Estima-se que, no ano de 2025, mais de 29.000 casos de câncer serão atribuídos à obesidade.

8. Dieta: ao contrário do que anda sendo difundido atualmente, a influência de fatores dietéticos no risco de desenvolver câncer ainda é incerto. As evidências associando dieta com risco ou proteção contra o câncer são provenientes de estudos epidemiológicos (estudos de casos e controles e estudos de coorte); os estudos prospectivos e randomizados (que são realizados em tempo real e com controle dos grupos de participantes) não mostraram associações relevantes. Como fatores protetores, frutas e vegetais com baixo teor de carboidrato estão associados com uma provável redução de risco de câncer de boca, estomago e esôfago. Frutas estão associadas a provável diminuição de risco de câncer de pulmão. Dieta rica em fibras parece reduzir o risco de câncer colo-retal. Atualmente, há estudos em andamento avaliando a associação de dieta com imunidade, como auxilio no combate ao câncer, mas os resultados ainda não são conhecidos.

 

É importante salientar que nem sempre conseguimos evitar os eventos necessário para um câncer se desenvolver. O que podemos é tentar diminuir os fatores que causam danos às células, o que pode ser bem efetivo para reduzir o risco de câncer, em algumas pessoas. O fato de não conhecermos todos os fatores envolvidos na formação de um câncer faz com que seja difícil prevenir o desenvolvimento de tumores malignos em 100% das pessoas. Ter uma vida saudável, com alimentação balanceada, exercícios físicos regulares, ingestão de bebidas alcoólicas em pequenas quantidades, vacinação sempre que recomendado, prática de sexo seguro (com proteção contra doenças sexualmente transmissíveis), cuidados com o sol e realização de exames de rastreamento do câncer conforme a idade, parecem ser as atitudes mais recomendadas, não apenas para prevenir câncer, mas para garantir um organismo mais saudável, capaz de combater outras doenças e também tolerar bem tratamentos que possam ser necessários ao longo da vida.

 

 


Daniela Dornelles Rosa
Médica Oncologista, PhD
Pós-doutora pela CAPES em Manchester (UK)
Porto Alegre, RS

 

 

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