De médica a paciente

A mulher em que me transformei

Meu nome é Fabíola La Torre e sou mãe do Arthur Ferreira La Torre, mais conhecido como “Tuti”. Por que estou me identificando assim? Porque pedi para o meu filho falar sobre mim e ele respondeu:
– “Ué, você é minha mãe. É a mãe do Arthur Ferreira La Torre, mais conhecido como ‘Tuti’”.
E é assim mesmo. Quando a gente tem um filho, se não prestarmos atenção , a gente perde a identidade. Eu moro em São Paulo desde 1998, mas sou de Campos dos Goytacazes, “terra dos índios”, no interior do Rio de Janeiro. Vim para São Paulo para  realizar a residência médica em Pediatria, Infectologia e Terapia Intensiva. Amo a medicina. Na verdade, eu não sou médica, sou Pediatra por natureza. Trabalho no Hospital Leforte e A.C. Camargo Cancer Center há vários anos na UTI pediátrica. No início de junho de 2016, recebi o diagnóstico de câncer de mama.  Foi quando me transformei: além de mãe e médica, passei a ser também paciente.

A primeira coisa que posso dizer é que (pode parecer loucura) não derramei uma lágrima. As perguntas de sempre me ocorreram, mas as respostas também: “Por que comigo? Porque isso realmente existe e acontece. Eu mereço? Ninguém merece. Mas, se está aqui vamos tratar. Isso é apenas um nódulo em meu caminho”.

Pesquisas afirmam que em 2030 haverá cerca de 27 milhões de mulheres com esse diagnóstico! Será que toda essa gente merece? Com certeza não. A primeira questão é falar com a família. Não é uma tarefa simples: alguns acham que você esconde algo, outros permanecem ao seu lado como sempre estiveram. Em relação aos amigos, descobri quais são os verdadeiros. E o mais  impressionante é que neste processo ganhei mais alguns e eles são para sempre.

A rotina de exames e consultas não é fácil. Muitos exames, mais remédios, novos médicos. Meu celular já tinha muitos telefones de médicos para trocar plantão, mas agora são os meus médicos que dominam a agenda. O meu nódulo era localizado, sem metástases, porque sempre me preveni. Ressalto aqui a importância do autoexame das mamas e dos exames de rotina, os quais sempre fiz.

Na sequência do tratamento vieram as preocupações com os meus cabelos e com a mudança na aparência. Esse foi mais um desafio superado, graças ao apoio de profissionais que acabaram transformando-se também em meus amigos. Acabei percebendo que ser careca pode ser bonito. Definitivamente não é o que quero para mim, mas consegui compreender que se tratava de um momento. Por outro lado, tive a oportunidade de ter experiências diferentes, que jamais pensei em vivenciar.

O mais incrível foi conviver com pessoas que sofriam do mesmo mal que eu. Não tem distinção de idade, de classe social, cor, nada torna você diferente delas. Nesse momento, somos todos iguais.  O câncer não sabe quem é quem. Foram meses de muitas privações, muito controle e autocontrole, mas também foram meses de muitas alegrias e conquistas. Principalmente com o meu projeto de “Médica a Paciente”, um blog que aborda temas ligados ao tratamento oncológico e orienta pacientes a encarar este momento da melhor forma possível.

Acho que estou aprendendo a ser uma pessoa melhor. Uma pessoa menos estressada, que sabe ouvir mais, mas que ainda sabe falar quando acha que deve. Uma pessoa que sabe o que é sentir o peso da espada no pescoço e ter de escolher: você quer viver ou quer morrer?

Não parei de trabalhar durante todo o meu tratamento, o que foi essencial para mim. Além disso, me associar ao “Cabelegria”, ajudando mulheres a obter perucas, e o lançamento do projeto “De Médica a Paciente” dá maior sentido à minha doença. Tudo isso faz com que a gente entenda que nada na vida é em vão. Eu tenho plena convicção disso. Luto por isso e sempre lutarei.

Minha vida mudou, eu mudei e continuarei mudando.

 


Fabíola Peixoto Ferreira La Torre
Médica Pediatra
São Paulo, SP

OBS.: o texto acima é o prefácio do livro que será lançado em breve pela Fabíola!


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