Como falar de câncer com seus filhos?

Uma conversa sincera com sua família e amigos é fundamental. Eles serão os principais aliados no tratamento, dando importante apoio emocional. O câncer ainda é encarado socialmente como um tabu, mas o paciente não precisa agir desta forma também dentro de sua casa.Todos que rodeiam o paciente em seu dia a dia devem estar cientes de como será o tratamento, quais os possíveis efeitos colaterais e demais pontos importantes relacionados ao tratamento. Algumas famílias marcam uma consulta especial com o médico para esclarecer todos esses aspectos.
Mudanças na rotina familiar e nas funções exercidas por cada membro da família podem ser necessárias. Isso precisa ficar claro a todos os envolvidos, que devem conversar e decidir como as tarefas e as funções serão redefinidas.
Para meu filho Arthur, foi meu marido quem contou. E como dentro de casa nós nunca escondemos nada de ninguém, ele acreditou em minha recuperação. A pergunta dele inicial foi só assim: “Mas quem vai cuidar dela? Não é ela a médica?” E mais uma vez meu marido explicou que “médicos de adulto” iriam me ajudar. E falar para ele foi a melhor coisa.


Você pode querer proteger o seu filho, mas as crianças geralmente sabem quando algo está errado. Seu filho pode te ver não se sentindo bem, pode te ver indo ao médico muitas vezes, e te ver fazendo muitos exames.  Desmitificar o câncer é uma dica, e diz respeito aos comentários que possam surgir sobre a doença e o tratamento.
Não vamos fazer da doença um tabu ou algo que não possa ser comentado. É importante que as crianças sintam um canal aberto de comunicação; que fiquem à vontade para perguntar o que quiserem, para chorar de medo ou de tristeza e até mesmo para rir de situações engraçadas que possam acontecer. Lembre-se: dividir esses sentimentos e percepções é muito saudável. Por outro lado, não precisamos mudar muito a rotina das crianças ou ficar o tempo todo falando sobre isso.
Até mais ou menos sete anos, a criança não entende a morte como irreversível, nem a gravidade do câncer como uma doença potencialmente fatal. Expliquem que é um bichinho malvado, que precisa ir embora. Diga que o bichinho é forte e para combatê-lo terá de tomar remédios mais fortes e que o remédio que pode deixá-la um pouco “mole”, que o cabelo poderá cair. Lembre-se de que elas vivem mais intensamente o presente e menos o futuro.
Será preciso que os pais se organizem para que outros adultos, uma tia, os avós ou padrinhos, cuidem mais de perto das crianças, garantindo que eles continuem frequentando a escola, o futebol e outras atividades.
Sugestões:
– dar às crianças informação apropriada de acordo com sua idade e nível de maturidade;
– ser aberto e honesto; sem informação correta, o que imaginarem pode ser muito pior do que a verdade;
– dê-lhes tempo para fazer perguntas e expressar seus sentimentos (muitas vezes, as crianças podem expressar melhor seus pensamentos ou sentimentos por meio de desenhos);
– as crianças veem o mundo do modo como se relacionam com ele; assegure-lhes de que são amadas e serão cuidadas;
– mantenha a vida tão normal quanto possível, tentando manter as rotinas diárias dos filhos;
– se seu filho apresentar dificuldade em compreender e lidar com o que está acontecendo, considere inscrevê-lo num grupo de aconselhamento ou, para os religiosos, marcar uma reunião com uma pessoa do clero.
As pessoas próximas ao paciente podem ser os maiores aliados na sua luta contra o câncer. Elas podem dar perspectiva, apoio e amor no momento em que o paciente mais precisa. Escolha um membro da família ou amigo para ser seu porta-voz, para os momentos em que você não quer falar sobre seu câncer ou seu tratamento. Alerte-o sobre como e quanto dizer aos outros.

Família e amigos vão querer ajudar: você precisa se concentrar em sua própria saúde e eles precisam sentir que estão ajudando você. Seja específico sobre o que eles podem fazer, pois as pessoas nem sempre sabem como ajudar ou saber do que você precisa.
Mantenha a vida tão normal quanto permita a sua saúde: relembre sua família e amigos que você ainda aprecia as mesmas atividades.
A criança pode perceber que você está com medo. Não importa o quanto você se esforce para manter as informações sobre a doença e tratamento – como a família, os amigos e o pessoal do hospital – podem dizer coisas que deixem seu filho saber sobre o câncer. Portanto,
não esconda: em primeiro lugar, não pense que é melhor esconder do seu filho que você está doente, pois ele perceberá as mudanças na rotina diária e perceberá a preocupação dos pais e familiares. Se não tiver coragem, peça para alguém ajudá-la a falar com seus filhos (mas é importante que os pais tenham essa responsabilidade, pois são a única referência segura para a criança). E não esqueça que a doença é curável e que muitas pessoas já passaram por isso e venceram.
Tudo tem seu tempo: escolha um local e hora adequada para falar, não haja por emoção. A forma como o assunto será abordado, também, será importante. Se você não acredita na cura como poderá esperar que seu filho o faça? Prepare-se para esse momento buscando conhecer a doença e alimentando-se espiritualmente, pois será uma dura batalha.
Seja claro: use uma linguagem adequada de acordo com a idade da criança.
Não use explicações sem necessidade: usar termos técnicos só vai assustar a criança, dê apenas informações que ela consiga entender ou faça comparações com a realidade que ela conhece.
Fale sobre a queda do cabelo e que depois o cabelo dele crescerá novamente.
Demonstre confiança.
Seja forte: não é errado mostrar os seus sentimentos para o seu filho, mas não esqueça que ele não está preparado para ser sua fonte de apoio. Mostre também sua força de vontade para vencer a doença. Isso o deixará mais seguro.
Aceite ajuda de todos: esse não é o momento de ressentimentos e mágoas do passado; vale a pena passar uma borracha em algumas coisas, pelo bem da família. Peça a ajuda de familiares para auxílio na mudança de rotina, como levar à escola, etc.
A diversão também é importante: leve as crianças para atividades legais de que elas gostem, tentando fazer com que tenham uma vida normal. Procure orientar-se com o médico acerca do perigo de contaminações e cuidados especiais para determinadas atividades. A família, também, precisa fazer coisas juntos.
Seguindo essas dicas, toda a família e amigos, inclusive a pessoa que está doente, conseguirão passar pelos desafios e ficar mais fortes e unidos como família.
Hoje eu e minha mãezona, que está sendo um grande apoio em minha vida, perguntamos para o meu filho o que mudou na sua vida após esses dias desde o meu diagnóstico. Ficamos bem tranquilas, pois ele respondeu muito claramente e ainda brincando dessa forma:
“- O que mudou depois do diagnóstico da minha mãe? Ela vai ficar sem trabalhar um tempo para fazer o tratamento. Com isso eu posso contar com ela me levando mais na escola, no inglês, um cineminha de vez em quando em horário que não íamos e também sobrou mais tempo para ficar comigo e eu estou gostando muito!”
Mais uma vantagem.
Só tenho a agradecer o quanto o meu filho é lindo, inteligente e compreensivo. Apesar de não gostar de beijos.

 


Fabíola Peixoto Ferreira La Torre
Médica Pediatra
São Paulo, SP

 


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