A verdade, sempre!

Eu tinha 33 anos quando descobri que eu tinha um câncer de mama agressivo e que eu deveria retirar o seio direito. Foi um tremendo choque! Por que eu estava passando por aquilo, em plena juventude? Por que eu deveria tirar o seio todo e esperar ainda um bom tempo até que o dia da reconstrução chegasse?

Na verdade, não há explicação para certas perguntas – ou para todas as perguntas. O que há é a certeza de que somos humanos e uma doença grave pode acontecer com qualquer um. Como diz um amigo meu, “doença não dá em poste”.

Mas como passar por esta etapa tão dolorosa sem estresse, sem dores, sem mágoas, sem revolta? Ainda por cima quando se tem um filho pequeno, que sente tudo o que está se passando na casa?

A primeira coisa que eu fiz foi fazer consultas com um psiquiatra especialista em câncer de mama e terapia de apoio com um psicoterapeuta. Uma das minhas tarefas para avançar na cura da doença, ou na compreensão desta, foi fazer um diário. O psicoterapeuta me dava lições para casa e eu deveria apresentá-las toda semana. Uma delas era: “O que é um dia feliz para você?”; “Como está se sentindo hoje?”; etc.

O apoio da família foi também um grande trampolim para eu passar esta etapa dura da vida.

A mulher durante a quimioterapia se transforma, o corpo não é mais o mesmo, os cabelos caem, o peso aumenta ou diminui, os seios de muitas vão embora…

A minha preocupação maior nesta época era com o meu filho, que começou a fazer muitas perguntas pertinentes sobre o meu estado de saúde e, sobretudo, por que é que eu tinha perdido o meu seio?

Foi durante o tratamento que eu comecei a escrever toda a minha trajetória com o câncer. Da descoberta, passando pelos dias no hospital até o dia em que faço a reconstrução do seio.

Mas pincei uma história e coloquei num pequeno livro: a ausência do seio para uma criança, o que significaria? O conto “Cadê seu peito, mamãe?”* foi lançando em 2010 pela Escrita Fina Edições e já teve as versões inglesa e francesa. Posso dizer que este foi um dos maiores presentes que a doença poderia ter me dado. Com este livro eu pude desmitificar o câncer, eu entendi que falar a verdade para uma criança só melhora as coisas, situa todos da família e nos faz avançar juntos. Esconder a verdade não leva a nada a não ser construir um monstro e angustiar aqueles que nos cercam. Devemos nos proteger enfrentando os fatos como a vida nos apresenta. E duro é, mas é mais duro se não assumirmos que a vida tem dessas coisas e que só podemos viver em paz conosco se integrarmos as coisas como elas realmente são, duras ou leves, tristes ou alegres.

 


Ivna Maluly
Jornalista e escritora infantil
Lyon, França

* a dica do livro da Ivna está no Infomama, na aba de Cultura.


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