A sala de espera da vida

Na primeira vez que tive câncer, meu primeiro pensamento foi na morte. O segundo, foi na vida. E o terceiro e o quarto e o quinto e o sexto… Ok, no sétimo, pensei na morte de novo, mas nunca me permiti acreditar que ela viria com o câncer e sobretudo não tão cedo, não aos 41 anos. Porque há mais pelo que viver do que pelo que morrer. Mas ao receber a notícia, em nenhum momento pensei nos cabelos. Foram minhas médicas que logo me alertaram: os cabelos vão cair! E eu ali, com milhões de outras preocupações e pensamentos. Uma revolução dentro da minha cabeça e nem me ocorreu pensar nos cabelos. A careca, no entanto, era um estigma. Um sinal ostensivo. Alguns vêem como sinal da doença. Para mim, era sinal da cura! As pessoas se incomodam muito com a aparência. Eu até achei que ficou exótico. Enfim, não era um problema. Só um detalhe. Sinceramente, nesse processo todo havia coisas MUITO mais importantes, para as quais ninguém nem ligava muito.

Mais importante era lidar com os milhões de pensamentos e emoções zunindo de um lado para o outro na minha cabeça, colocando-me no meio de um turbilhão. Era difícil controlar essa avalanche para se concentrar no tratamento e permanecer tranquila para o seu sucesso. Quando terminei o tratamento, estava certa de ter sido bem-sucedida nessa parte, porque não me deixei dragar para dentro da tormenta. Não dei muito espaço para isso. Mas, claro, fiz minhas reflexões. Não me fiz a famosa pergunta do “porque eu”? Meu questionamento foi mais no sentido de “para que propósito”? Era claro para mim que o câncer tinha o propósito de demandar de mim mudanças importantes para continuar vivendo. E tive que dar uma vasculhada na vida para entender quais mudanças eram necessárias. O câncer era como um alerta: se você continuar nesse caminho, vai morrer. Sim, morrer vamos todos, mas no meu caso a morte teve a generosidade de dar um aviso prévio. Nem todos têm essa sorte. Considero uma benção! Era como um tapa na cara dizendo “chega! Te sacode e segue a vida”. À época eu sofria com o fim de uma relação. E tenho certeza que meu sofrimento virou um tumor. Eu criei essa teoria para minha doença e isso me ajudou. Deus foi bom para mim, condensando nessa bola dura de mais de três centímetros na minha mama direita tudo de ruim que havia em mim e me fazia sofrer. Exatos 3,3 centímetros de sofrimento. Parece pouco, mas fez um baita estrago…. Minhas reflexões iniciais então eram: se eu não romper isso que me faz mal, a doença vai tomar conta. Ela até pode ir embora agora, mas voltaria. Se eu não mudar, ela vai voltar. Foram quatro sessões de quimioterapia com esse pensamento. Eu não tinha muita segurança a respeito do que exatamente em mim eu precisava mudar. Parecia-me que a única coisa concreta que eu poderia fazer era romper aquele relacionamento. Eu sabia que me fazia mal. E sabia que para ficar bem deveria cortar tudo que me fazia mal. A medicação não ia funcionar se eu não ajudasse. Então, tratei de começar a cortar os vínculos. Timidamente ainda, porque é difícil mudar. É difícil romper condicionamentos. Mas fui me convencendo.

Depois da quarta sessão de quimio, mais ou menos três meses depois do início do tratamento fiz um exame para verificar se o tumor havia reagido à medicação e, surpresa, ele não estava mais lá! Regressão total do nódulo, dizia o laudo. Alívio! Alívio e certeza de que tudo que ele representava tinha ido embora também. E ali dei adeus ao sofrimento e me voltei para uma vida repleta de possibilidades e expectativa. Mas era preciso esperar. De repente, eu queria fazer tudo, viver tudo, experimentar tudo. No entanto, o tratamento continuava. E assim também a fadiga, o mal-estar, as limitações. Então minha segunda reflexão foi: paciência. Tudo tem seu tempo. Era difícil esperar. E passei a viver na sala de espera. Vivia a espera de poder abraçar a vida. Olhava pela janela e aguardava o dia em que poderia sair livremente, dançando e sorrindo. Enquanto isso, valorizava outras pequenas coisas do dia a dia. Aprendendo a ver luz e graça em todas as coisas.

Mas na segunda vez que tive câncer… na segunda vez, meu mundo desabou. Fazia pouco mais de seis meses só que eu tinha saído da minha sala de espera imaginária. Minha ainda frágil autoconfiança se foi. Minha estrutura ruiu. Minha teoria tão minuciosamente construída se voltou contra mim como um tsunami. Era como se uma voz gritasse na minha mente: você não fez o suficiente! Você não fez o suficiente! Parecia que a minha viagem interior teria que ser mais profunda do que eu imaginava. O que eu andava fazendo de tão errado para o câncer voltar e voltar com mais força? Poucos meses antes, meus exames não acusavam nada e de repente aquele nódulo… E poucas semanas depois, outro nódulo. E depois, infiltração na pele. O que essas células doentes, que se reproduzem enlouquecidamente queriam me dizer? Que significado tinha aquilo tudo?

Não tive muito tempo para pensar nisso antes de me despedir definitivamente da mama. E logo depois os cabelos se foram de novo… Tudo tem sido mais difícil dessa vez. A careca agora incomoda mais. Não por causa dela mesma, continuo achando exótico. O que incomoda é o olhar dos outros para ela. Não tenho mais aquela força para explicar, comentar e ouvir chavões do tipo: “cabelo cresce de novo”! A recuperação da cirurgia foi mais dolorosa também e com mais sequelas. Mas tenho aprendido nesse caminho, que ainda não terminou. Eu ainda acredito que o câncer, nas pessoas adultas, vem com um propósito. Ainda acredito que ele vem como uma oportunidade de autorreflexão, de mudança, de melhoria, de renascimento. Tenho tentado ser mais generosa comigo mesma, sobretudo, tenho tentado afastar minha teoria maluca de que tenho algum tipo de responsabilidade no desenvolvimento da doença. Claro que um comportamento positivo, uma visão otimista e uma atitude confiante ajudam no tratamento. Não tenho dúvida disso. Mas eu não sou responsável pelo câncer. Ele não vem e vai por causa das minhas atitudes, das minhas limitações, dos meus erros, das minhas carências. Ele vem porque tem que vir. E para cada pessoa é diferente. É uma doença, que, embora tenha seus padrões, se revela distintamente em cada pessoa que é afetada por ela. E isso vale tanto para os doentes, como para aqueles que sofrem junto com eles. Eu posso falar do meu câncer, mas cada um tem o seu, diferente do outro.

E do meu câncer eu posso dizer que, ao invés de lutar contra ele, estou aprendendo a abraça-lo como parte da minha vida. Ele não é morte, mas parte de uma vida exuberante! Ele me faz ser generosa e gentil comigo mesma, está me ensinando a perdoar a mim mesma e me faz sentir a força imensa da gratidão. Eu ainda estou aprendendo… Ele está me ensinando que não existe sala de espera na vida. Nunca! Eu vivo hoje a minha vida plenamente e a aceito com gratidão, exatamente como ela é. Com toda sua beleza, com toda sua dificuldade, com toda sua graça.

Não, eu não sou uma paciente. Ser paciente oncológica não me define. Eu sou Fabiana, filha teimosa, impaciente e carinhosa, mãe feliz e realizada de uma explosão de alegria chamada Julia, professora amante do conhecimento, amiga leal, mulher curiosa da vida, vibrante de amor e encantada com a beleza da existência. Um grupo de células teimosas diz pouco sobre mim, porque a parte não define o todo, e eu sou tudo e nada, sou muito e pouco, sou inteira e sou metade. Muito prazer, eu sou Fabiana, aprendendo a viver!

 


Fabiana D’Andrea Ramos
Professora Universitária
Porto Alegre, RS

 

 

 

 


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