A primavera que mudou a minha vida

Minha história começa na primavera de 2014. Meu marido, o Gabriel, um anjo que a vida enviou pra mim, sempre me examinou regularmente devido a relatos de maridos que estavam atentos às anormalidades nas mamas das esposas. O fato é que, com 31 anos, eu era uma pessoa extremamente relapsa com minha saúde de maneira geral. No momento em que ele tocou e achou um carocinho, nos olhamos e não precisamos falar nada, foi muito tenso, parece que prevíamos o que estava por vir!

Procurei uma ginecologista, fiz os exames solicitados e fui parar aos cuidados de uma equipe genial! Recebi o diagnóstico na tarde do dia 28 de novembro de 2014, após uma biópsia que demorou 10 longos dias para ficar pronta.  Junto comigo, estavam o Gabriel e a minha tia Verônica. Nesse dia, descobri que tinha uma longa batalha contra um carcinoma ductal infiltrante de mais ou menos cinco centímetros, que estava aboletado no meu seio esquerdo! Lá estava eu: com uma doença horrorosa que poderia me matar, mas que eu sabia que precisava de toda a força do mundo pra enfrentar. Eu era jovem, tinha um marido lindo, filha única de um casal de meia idade, cheia de vida e com todos os sonhos do mundo dentro de mim. Eu não derrubei uma lágrima diante dessa bomba, foi uma sensação horrível. Eu respirei fundo e perguntei pra médica se eu iria perder meu cabelo, ela respondeu que sim e disse: “Laiani, tu tens 98% de chances de sobreviver”. Eu respirei aliviada e saí de lá com um saco de perguntas em uma mão e outro cheio de possibilidades. Eu fiz muitos exames neste dia, tive que consolar meus pais, minha sogra, explicar para os meus amigos, colegas de trabalho e digerir a notícia. Foi aí que entendi o que o Herbert Viana quis dizer quando poetizou “Uma noite longa para uma vida curta”. Naquela noite, eu vivi todos os temores, medos e fantasmas que alguém pode viver. É muito estranho saber que nos próximos meses da tua vida tu vai ter que conviver com um câncer.

Na segunda-feira, quando cheguei ao trabalho, todos os meus  colegas, que  já sabiam do ocorrido, estavam usando roupas rosa. Fiquei muito emocionada, grata por ser tão amada por eles. Naquela mesma semana, conheci a oncologista. No contexto todo, me senti acolhida, protegida e confiante. Os próximos 15 dias foram de espera, um mar de informações e palpites de todos os lados. Eu sabia que por volta do 13º dia, após a primeira quimioterapia, iria começar a perder o meu cabelo. Mas aquilo era algo muito distante para mim, é louco dizer, mas eu não estava preparada! Foi muito rápido, o meu cabelo começou a cair pela raiz em uma sexta-feira. No domingo, eu batizei meu sobrinho, o Felipe. Eu senti a vida em todas as cores e formas, realmente foi um dia de celebração!

No dia seguinte, dia 15 de dezembro, eu e o Gabriel fomos raspar a cabeça em Porto Alegre, enquanto a minha sogra e a minha mãe, que moram no interior rasparam, meu padrinho e o tio Fabio, também. Todos entraram na onda! E não é tipo aquela cena da novela, super dramática, da menina raspando o cabelo e morrendo de chorar. No meu caso foi um alívio, porque realmente é muito chato o teu cabelo despencando da cabeça o tempo todo. Fundamos a Confraria dos Carecas. Cada dia que passava eu ficava com menos pelos pelo corpo e com o meu tumor cada vez menor! Eu usei peruca loira, abusei dos lenços, ganhei diversos chapéus, mas o que mais me fez feliz foi uma peruca roxa que ganhei do meu marido e que elevou a minha auto-estima.

Mas nem tudo foi tão fácil. Em fevereiro de 2015, perdi o meu avô, que tinha 86 anos, e não pude participar porque tive um dia inteiro de febre e teria que viajar 600 quilômetros até a minha cidade natal, onde aconteceu o sepultamento. Foi um dos piores momentos da doença, a impotência. Em todo processo, fui a pessoa mais bem tratada, meu marido e minha mãe beiravam a chatice comigo, eu era um bebê. Eles lutaram pela minha vida tanto quanto eu. E atribuo a eles a minha força e imunidade nem tão baixa assim, devido a muita comida saudável que ingeri nesse período. Os enjôos eram aplacados com muito suco gelado e natural, é claro.

A cada quimioterapia eu passava muito mal, cheguei a pensar que fosse morrer! Mas depois dos efeitos desagradáveis, eu me sentia mais e mais fortalecida e com muita vontade de viver! Cada dia que eu me sentia melhor, era uma grande vitória. Cada vez que tinha que fazer procedimentos (que foram diversos) ou consultas médicas, eu voltava mais fortalecida. Lá, conheci diversas mulheres, umas carecas, outras com cabelo, umas com seio, outras que fizeram mastectomia radical, mas ok, elas estava todas lá, vivas e lutando.  E isso dá uma motivação imensa pra seguir em frente! Quando tu tem uma doença dessas, a sensação é de que tu quer aconchegar todas as pessoas que estão passando por isso, dizer que é uma maré ruim e que vai passar! E sabe da melhor novidade? VAI PASSAR! O meu tumor sumiu na terceira quimioterapia, porém as sessões continuaram até abril e, em maio de 2015, eu fiz a cirurgia de setorectomia, isto é, não retirei a mama. O meu seio ficou perfeito e eu não posso dizer que senti dor, porque não senti nenhuma espécie de dor no pós-operatório.

Um ano depois da cirurgia, eu havia feito uma tomografia do crânio, porque foram encontrados dois pontos de captação. Apesar de suspeitar que eram cicatrizes de pontos na cabeça devido a um tombo de infância, não hesitei em fazer o exame o mais rápido possível. Feito o exame, buscaria o resultado na mesma semana em que recebi uma ligação da médica. Eu senti as minhas pernas virando água, uma sensação de medo sem explicação. Em fração de segundos, imaginei ela dando uma péssima notícia. Mas não, ela me pediu pra acalmar outra paciente, de 24 anos, que se submeteria a uma cirurgia dentro de poucos dias. A médica disse não ter pensado em ninguém melhor para conversar com ela! O meu alívio se misturou com o sentimento ótimo de poder ajudar alguém e com a emoção de sentir de uma médica tamanha preocupação e cuidado com suas pacientes.

Hoje, concluo que, naquele dia em que recebi o diagnóstico de câncer, eu recebi uma sentença de vida. Porque quando acontece algo que nos tira o chão, a única alternativa é ser forte, mas forte de verdade. para estar viva!


Laiani da Rosa Bordin
Servidora Pública
Porto Alegre, RS


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